Porquê Romãzeira
Há uma árvore no brasão da Amadora em que quase ninguém repara. Foi dela que tirámos o nome, e com ela a pergunta que queremos fazer à cidade.

Quem olha para o brasão da Amadora vê primeiro o aqueduto. Por cima, uma manga de vento e uma hélice lembram o antigo campo de aviação. E em baixo, quase escondida, está uma romãzeira, florida e carregada de fruto.
Quando o brasão foi aprovado, em 1984, a árvore ficou ali para representar o crescimento rápido e o desenvolvimento da cidade. A Amadora tinha-se tornado concelho e cidade em 1979 e crescia a um ritmo que poucas terras do país conheceram.
Uma cidade que cresceu depressa
A romãzeira dizia a verdade. A Amadora cresceu muito, e cresceu depressa. Hoje é uma das cidades mais densamente povoadas de Portugal.
Mas crescer não é o mesmo que dar fruto. Uma árvore que só cresce em altura, sem flor e sem fruto, não alimenta ninguém. Em muitos bairros, o crescimento trouxe prédios sem praças, ruas sem árvores e bairros sem sítios para as pessoas se encontrarem.
A pergunta que a romãzeira nos deixa hoje não é se a cidade cresce. É se dá fruto a quem nela vive.
A cidade que já se pensou a si própria
Não somos os primeiros a fazer esta pergunta. No início do século XX, quando a Amadora ainda era uma pequena terra à beira da linha de comboio, houve quem sonhasse com uma Cidade-Jardim, que juntasse a natureza ao centro urbano. Fizeram-se Festas da Árvore. E entre 1909 e 1916 os moradores juntaram-se na Liga dos Melhoramentos da Amadora para lutar pelo "bem-estar e o desenvolvimento harmonioso" da terra. Conseguiram, entre outras coisas, novas instalações para as escolas.
Era gente comum, sem poder político próprio, que decidiu pensar a cidade em conjunto. É essa a tradição que queremos retomar.
Muitas sementes no mesmo fruto
Há ainda outra razão para o nome. Uma romã guarda centenas de sementes dentro do mesmo fruto, cada uma diferente, todas juntas. É um bom retrato da Amadora de hoje, uma cidade feita de pessoas vindas de muitos lugares.
Para que serve este espaço
A Romãzeira nasce para isso: pensar a Amadora. Vamos escrever sobre urbanismo, mobilidade, ambiente, sociedade, economia, cultura e desporto, e sobre as decisões que moldam a cidade.
Não somos um jornal. Cada texto é uma reflexão assinada, com sentido crítico, e sempre que possível com indicação dos documentos em que se baseia. Queremos que seja um espaço aberto, onde caibam várias vozes, desde que tragam ideias e respeito pelo debate.
A romãzeira do brasão está em flor e com fruto ao mesmo tempo. É essa a cidade que queremos ajudar a pensar: uma cidade que continua a crescer, mas que dá fruto a quem nela vive.
Texto de opinião de Romãzeira. Reflete apenas a opinião de quem o assina. Este espaço não é um órgão de comunicação social. Quem escreve